sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Resto.

Lágrimas deslizando pelo meu rosto por sua causa se tornaram raridade; você não merece e nem eu. A única coisa que sobrou de tudo que envolvia nós dois é o resto daquele sentimento devastador que tomava conta de cada pedaço de mim, e até mesmo esse resto já está se desgastando. Nem sempre a esperança é a última que morre: às vezes, como nesse caso que eu não posso chamar de nosso, é o resto do que já havia se desfeito que fica até o final. Ou talvez seja um pedaço de mim que morrerá por último. É que eu me acostumei tanto a carregar o peso que você colocou nas minhas costas - e no coração - que ele se tornou uma parte de mim. Mal consigo imaginar como vai ser quando ele deixar de existir. Não sou completa agora porque sinto a falta de quem você era, mas duvido que isso mude quando eu não sentir mais nada por você, afinal, será outra parte de mim indo embora. Resto. Acho que o que eu sinto por você não tem outro nome além desse porque realmente não passa disso, um resto. O resto de tudo que foi embora, o resto do sentimento que poderia ter crescido e crescido se você tivesse deixado, o resto do que me fez passar várias noites em claro, o resto do motivo dos meus olhos inchados, o resto de tudo que não parecia diminuir a intensidade, o resto do quanto eu queria que a gente tivesse dado certo, o resto da dor de saber que você não dava a mínima. Tal resto que está se desvanecendo com o tempo, e se eu sobrevivi quando esse resto era um inteiro, esperar mais um pouco não deve ser tão difícil.

Você não sai.

Eu queria que a gente pudesse fingir só por um dia que tudo tá do mesmo jeito que estava há dez meses, só para sentir de novo o efeito que o seu abraço me causava. Só para poder cheirar o meu moletom para ver se o seu cheiro está lá e estar, e eu soltar um suspiro de satisfação. Para que aquela alegria inexplicável me preencha só mais uma vez. Mas a gente não pode e você não liga. Sabe, eu não vou dizer que eu me tornei a pessoa mais infeliz do mundo depois que você foi embora, porque eu não sou. Eu até que sou feliz. Minha vida tem seus altos e baixos como a de todo mundo, mas eu sou feliz. Mas nada se compara àquela felicidade que você me fazia sentir e eu tenho quase certeza que ninguém vai saber reproduzi-la. Eu queria saber o que eu fui pra você. Eu sei que signifiquei alguma coisa, mas não sei como é que isso pode ser verdade se você me esqueceu tão rápido. Eu odeio estar fragilizada desse jeito porque amanhã faz dez meses que você desistiu da gente enquanto você deve estar sorrindo ao pensar nela. Eu temia que alguma menina soubesse fazer você ficar - coisa que eu não fui capaz de fazer - e parece que ela sabe. E ninguém faz ideia do quanto isso me tortura. Eu preciso tirar você de mim. Eu tentei de tudo, meu Deus do céu, como eu tentei, mas você não sai e não é nem porque você não deixa ou porque eu ainda tenho esperança. Você nem ao menos sabe que eu ainda sinto alguma coisa e as minhas esperanças morreram há muito tempo, mas você não sai. Você não sai de jeito nenhum e de todas as coisas do mundo essa é a que eu mais preciso. Vai passar. Eu sei que vai passar. Mas já fazem dez meses e ainda não passou. Eu vou ter que aguentar mais quantos? Porque eu realmente não sei se eu consigo. Quer dizer, eu vou ser obrigada a aguentar, mas isso não significa que eu tenha estrutura pra isso. Eu não tenho. Eu sinto tanto a sua falta que parece que você não fez todas aquelas coisas horríveis pra mim, porque eu acho que se você tivesse feito as mesmas coisas para outra pessoa, ela não estaria escrevendo esse texto agora. Mas é que você também me fez sentir as melhores coisas do mundo e é delas que eu sinto falta. E, sentindo falta delas, não tem como não sentir de você. Não tem como ser amor porque eu acredito que amor seja uma coisa boa, que faz bem e dá certo, e faz muito tempo que isso deixou de me fazer bem e que eu descobri que a gente só poderia dar certo em outra vida e olhe lá. Mas é uma coisa muito mais complexa do que sentir falta porque eu já lidei com a falta de muitas pessoas que já foram muito importantes para mim antes e nenhuma delas me causava tudo isso e essa sensação horrível. Eu não sei o nome do que eu sinto, eu sei que já passou da hora de morrer.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Eu sou uma parede.

Mirei a parede. Ela tinha algumas rachaduras quase imperceptíveis que só quem prestasse muita atenção nela notaria sua existência, o que me fez perceber que eu parecia estar falando de mim e das “rachaduras” do meu coração e não da parede. Assim como eu, tinha algumas marcas que não saiam com produto nenhum e a única solução seria passar tinta por cima, mas a cor ficaria meio diferente e não adiantaria muita coisa a não ser que eu pintasse a parede toda, mas isso causaria uma bagunça enorme e começar tudo de novo nunca foi uma tarefa simples para mim. Ela tinha uma metade branca e a outra cinza. Era uma tonalidade bem clara de cinza, tanto que ele quase se camuflava com o branco e essa é outra coisa em comum entre eu e a parede. Na maioria das vezes é a minha parte branca que se sobressai, ou seja, é quando estou feliz e sorridente e em paz e transparente. Mas quando é a cinza que toma conta de mim, eu me sinto apagada e quero me isolar do mundo. Essa minha parte cinza, assim como a da parede, também quase se camufla com a branca e quase ninguém a nota e me tratam como se eu estivesse toda branca quando eu não tenho estrutura pra isso. Espera aí, estou falando de mim ou da parede? Ah, se for pensar bem, não faz muita diferença. Observando todas essas coisas e descobrindo todas essas semelhanças, cheguei à conclusão de que eu sou uma parede. Eu sou repleta de rachaduras e marcas. Eu sou metade branca, metade cinza. Eu sou uma parede.

I'm sorry I'm alive.

Encaro a folha de papel e a caneta sobre ela. Não consigo formular frases que tenham o poder de expressar a sensação que tomou conta de mim e eu continuaria na mesma situação mesmo se revirasse um dicionário inteiro. Acordar não tem sido muito bom. Honestamente, não tem sido nada bom. Dizer que eu lamento ainda não ter parado de respirar soa como um pecado quando há milhares de pessoas em situações bem piores do que a minha ou lutando por apenas mais algumas horas de vida, o que só ressalta o quanto a vida é injusta. Nada mais alivia essa constante vontade de chorar e de dormir durante meses e acordar num lugar onde me traga paz e ninguém saiba quem eu sou. Nada alivia essa sensação de culpa por ser quem eu sou e pela forma que eu ajo como consequência disso. Nada me faz acreditar que eu não deveria me sentir assim e que tudo isso vai passar. Tudo o que eu queria era sumir por uns tempos ou até mesmo para sempre, mas como a maioria das coisas que eu quero, isso está definitivamente fora do meu alcance. Não sei o que posso fazer para mandar tudo isso embora e estou começando a pensar que isso também não é possível. Sei que estou sendo fraca por não conseguir enfrentar essas coisas, mas a culpa não é minha se a vida fez com que todas as minhas forças se esgotassem. A culpa não é minha, mas meu Deus, como dói sentir como se fosse, e dói o tempo todo. Tudo o que me resta é dormir para silenciar por algumas horas os gritos da minha alma e esperar que durante esse tempo Deus decida que já está na hora de acabar com todo esse sofrimento seja de qualquer forma, de preferência me livrando do peso que é abrir os olhos.

Você não gosta de mim.

Demorei vários e dolorosos meses para encarar a realidade: você não gosta de mim. Não era medo, insegurança ou orgulho. Nunca foi. Você só não gosta de mim. Caso eu dissesse que ainda sinto algo que não tem nome por você, isso não mudaria. E se eu ignorasse esse fato e continuasse agindo como se você e sua estupidez não me afetassem em nada, o que é justamente o que vou fazer, você continuaria não gostando de mim. Era bem mais fácil acreditar que você se importava, mesmo que muito pouco, porque assim eu poderia jogar tudo para cima de você e fugir da ideia aterrorizante de estar sozinha nisso. Mas eu estou sozinha nisso. É patético ter plena consciência disso e continuar aqui. O problema é que não depende de mim. Por mais que eu faça o que as pessoas chamam de seguir em frente, as lembranças me impedem de sair do lugar. É que eu me lembro clara e frequentemente de você me chamando colocando o seu sobrenome depois do meu, de como você se importava e demonstrava que o fazia, de você me carregando desajeitadamente e do seu perfume no meu moletom. Tudo isso está no passado, eu sei, e é justamente isso que não entra na minha cabeça. Não consigo aceitar que nós tínhamos tudo para dar certo e, mesmo assim, não conseguimos ir para frente. Agora não dá mais, não adianta tentar de novo, eu nem tenho mais vontade de tentar de novo porque sei que não adiantaria nada e nem espero que você tenha porque sei que você não tem. Você sabe que nós poderíamos ter dado certo e isso não te afeta nem um pouco, nem por um milésimo… Mas comigo é justamente o contrário. O que eu mais preciso é afastar essas lembranças nocivas que são nocivas somente por não passarem de lembranças, porém, não consigo fazê-lo.